Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, especialista em diagnóstico por imagem, acompanhou os efeitos mais silenciosos da pandemia de COVID-19 sobre a saúde da mulher: a interrupção em massa do rastreamento mamográfico e o acúmulo de um déficit de exames que ainda hoje produz consequências clínicas graves. Neste artigo, você vai entender por que esse intervalo forçado foi tão perigoso, como o atraso no diagnóstico do câncer de mama se traduziu em casos mais avançados e o que precisa mudar para recuperar o tempo perdido.
O que aconteceu com o rastreamento mamográfico durante a pandemia?
Entre 2020 e 2021, serviços de saúde em todo o mundo suspenderam procedimentos considerados eletivos para priorizar o atendimento à COVID-19. A mamografia de rastreamento, classificada como não urgente pela maioria dos protocolos de crise, foi amplamente interrompida. Clínicas fecharam, consultas foram canceladas e mulheres, orientadas a evitar ambientes hospitalares, adiaram voluntariamente seus exames preventivos.
O resultado foi uma queda abrupta no volume de mamografias realizadas, estimada em mais de 50% em vários países durante os meses mais críticos da pandemia. Esse colapso no rastreamento não significou ausência de doença, mas ausência de diagnóstico. Tumores que seriam detectados precocemente continuaram crescendo sem intervenção, migrando silenciosamente para estágios mais avançados e de tratamento mais complexo.
Qual foi o impacto real do atraso diagnóstico no câncer de mama?
O câncer de mama detectado em estágio inicial tem taxas de sobrevivência superiores a 90% em cinco anos. Quando o diagnóstico ocorre em estágios avançados, esse índice cai de forma significativa. Portanto, cada mês de atraso no rastreamento representa uma janela de progressão tumoral com consequências diretas sobre o prognóstico da paciente. O doutor Vinicius Rodrigues reforça que o impacto não foi imediato, mas está sendo sentido agora, à medida que casos mais graves chegam aos serviços de oncologia.
Estudos publicados após o período mais agudo da pandemia já documentam aumento na proporção de diagnósticos em estágios III e IV em comparação com os anos anteriores. Esse deslocamento no perfil dos casos exige tratamentos mais agressivos, internações mais longas e onera tanto as pacientes quanto os sistemas de saúde. O déficit acumulado de exames criou, na prática, uma onda secundária de adoecimento que ainda está em curso.

Como o déficit de exames pode ser recuperado?
Recuperar esse atraso exige mais do que simplesmente reabrir as portas dos serviços de imagem. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues nota que é necessário implementar estratégias ativas de busca, com convocação direta das mulheres que perderam seus exames periódicos durante a pandemia. Campanhas de comunicação direcionadas, ampliação de horários de atendimento e integração entre atenção primária e serviços de diagnóstico são medidas concretas que precisam sair do papel.
Além disso, a telemedicina pode cumprir um papel importante nesse processo, facilitando a triagem de risco e o agendamento sem que a paciente precise se deslocar em um primeiro momento. A tecnologia não substitui o exame físico nem a mamografia, mas reduz barreiras de acesso e acelera o fluxo de encaminhamento para quem mais precisa.
Por que o rastreamento contínuo é inegociável mesmo em contextos de crise?
A pandemia evidenciou uma fragilidade estrutural: os sistemas de saúde não estavam preparados para manter serviços preventivos funcionando em paralelo a uma emergência sanitária. O doutor Vinicius Rodrigues argumenta que o rastreamento oncológico precisa ser tratado como serviço essencial, com protocolos de funcionamento adaptáveis que garantam continuidade mesmo em cenários adversos.
Interromper a prevenção para combater uma crise não elimina as outras doenças. O câncer de mama não entrou em quarentena. Reconhecer esse fato e agir com urgência na recuperação do déficit acumulado é uma obrigação clínica, ética e de saúde pública.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez










